O que causou isso no seu caso só se confirma na avaliação, com exame e medição da gengiva. Mas a pergunta que quase todo mundo faz primeiro tem resposta geral: a gengiva retraída não cresce de volta sozinha. Em muitos casos, porém, a raiz exposta pode voltar a ser recoberta, com uma cirurgia chamada enxerto de gengiva.
A gengiva retraída volta ao normal sozinha?
Não volta a crescer por conta própria. O nome técnico do problema é recessão gengival: a margem da gengiva desce e descobre parte da raiz. Escova, pasta ou remédio caseiro não fazem a gengiva subir de novo.
O que o cuidado em casa faz, e faz bem, é outra coisa: ajuda a impedir que a recessão avance e alivia a sensibilidade. Recobrir a raiz é trabalho de procedimento, e o mais estudado para isso é o enxerto de gengiva.
Por que a gengiva retrai e a raiz fica exposta
A recessão quase nunca tem uma causa só. As mais comuns:
- Escovação com força ou escova dura. O atrito repetido, ano após ano, empurra a margem da gengiva para baixo.
- Inflamação da gengiva e perda de osso. A doença periodontal destrói o suporte do dente, e a gengiva acompanha o osso que se perdeu.
- Gengiva fina e osso fino. Algumas pessoas nascem com uma camada mais delicada sobre a raiz, que recua com mais facilidade.
- Posição do dente. Um dente projetado para fora do arco fica com pouco osso e pouca gengiva por cima da raiz.
- Movimento do dente depois do aparelho. A contenção fixa, o fio fino colado atrás dos dentes da frente quando o aparelho é retirado, mantém o alinhamento na grande maioria dos casos. Num estudo que acompanhou 221 pacientes por cinco anos, o alinhamento ficou estável em 90,5% deles, e movimentos inesperados de algum dente apareceram em 2,7% (Renkema e colaboradores, American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics, 2011). Quando isso acontece, o dente pode ser empurrado aos poucos para fora do osso. Por isso a contenção pede consultas de acompanhamento. Foi o que ocorreu no caso mostrado mais abaixo.
Na avaliação, o dentista mede quanto a gengiva desceu, verifica o osso entre os dentes e procura a causa. Tratar a causa vem antes de qualquer cirurgia; sem isso, a gengiva tende a recuar de novo.
Uma confusão comum: gengivoplastia não é tratamento de gengiva retraída. Ela faz o contrário, retira gengiva para expor mais o dente, e é usada no sorriso que mostra gengiva demais.
Gengiva retraída: o que fazer em casa
Enquanto a avaliação não acontece, alguns cuidados ajudam:
- Escova macia e movimento suave. Sem esfregar na horizontal; a pressão deve ser leve.
- Creme dental para sensibilidade. Alivia o incômodo com o frio na raiz exposta.
- Fio dental todos os dias. Controla a inflamação, que é uma das causas da recessão.
- Nada de receita caseira na gengiva. Bicarbonato, sal e afins não recuperam gengiva e podem desgastar a raiz, que é mais macia que o esmalte.
Esses cuidados controlam a sensibilidade e o avanço. Não recobrem a raiz.
Raiz exposta dói? Pode fazer o dente cair?
A raiz não tem a camada de esmalte que protege a coroa do dente. Exposta, ela costuma reagir ao frio, ao doce e à escova, e fica mais sujeita a desgaste e a cárie na raiz.
A recessão sozinha não faz o dente cair. Quando ela vem da doença periodontal, com perda de osso, o dente pode ficar mole com o tempo, e aí o que ameaça o dente é a doença, não a gengiva baixa em si. Por isso a primeira etapa é sempre descobrir a causa.
O que é o enxerto de gengiva e como é feito
O enxerto de gengiva, ou enxerto gengival, leva tecido de outra parte da boca para cobrir a raiz exposta. A técnica mais usada para recobrir raiz é o enxerto de tecido conjuntivo: o conjuntivo é a camada de dentro da gengiva, firme e espessa, retirada geralmente do céu da boca, o palato.
Em linhas gerais:
- Anestesia local. Se você preferir, a sedação por medicação oral também está disponível.
- Preparo da área. A gengiva ao redor da raiz é descolada com cuidado, e a superfície da raiz é limpa.
- Retirada do enxerto. Uma pequena faixa de tecido conjuntivo é retirada do céu da boca.
- Posicionamento. O enxerto é colocado sobre a raiz, e a gengiva é puxada por cima dele.
- Pontos. Mantêm tudo no lugar durante a cicatrização e são retirados numa consulta de retorno.
Uma revisão sistemática que reuniu 51 ensaios clínicos concluiu que essa combinação, a gengiva puxada para cima com enxerto de conjuntivo por baixo, teve o melhor resultado de recobrimento da raiz em recessões isoladas (Cairo e colaboradores, Journal of Clinical Periodontology, 2014).
O quanto da raiz volta a ficar coberto depende, sobretudo, do osso e da gengiva que existem entre os dentes. Quando esse suporte está preservado, a chance de recobrimento completo é maior; quando já se perdeu, o recobrimento pode ser parcial. É isso que a avaliação mede antes de indicar a cirurgia.
Um caso real: enxerto de tecido conjuntivo num incisivo inferior
O paciente chegou com recessão num dente da frente de baixo. Ele usava contenção fixa depois de um tratamento com aparelho, e, com o tempo, a contenção acabou empurrando esse dente para fora do arco, além do osso. A raiz ficou saliente, com pouca gengiva por cima. A tomografia, um exame de imagem em três dimensões, confirmou a posição do dente fora do osso.
Havia dois caminhos. O primeiro era usar aparelho ortodôntico antes da cirurgia, para trazer o dente de volta para dentro do osso. O paciente não quis passar por um tratamento longo antes de operar. A decisão, tomada em conjunto com ele, foi outra: uma semana antes do enxerto, o Dr. José Grimaldi aplainou a superfície da raiz com uma broca própria para esse acabamento. A ideia era reduzir o volume da raiz projetada. Com a raiz saliente, a gengiva enxertada ficaria esticada sobre ela, sob tensão, e isso poderia prejudicar ou até impedir o resultado.
A cirurgia de enxerto de tecido conjuntivo foi feita pelo Dr. Rafael Prudêncio, da equipe de especialistas da Casa Grimaldi.
Antes da cirurgia, a recessão foi medida com uma sonda periodontal, uma régua fina com marcas de milímetro, que mede a distância entre a linha onde o esmalte termina e a raiz começa e a borda da gengiva. Neste caso, cerca de 7 milímetros de raiz estavam expostos: mais de meio centímetro de dente que deveria estar coberto pela gengiva.
O acompanhamento deste caso continua, e este artigo pode ganhar fotos novas nos próximos meses.
Cada caso tem o seu ponto de partida. Este mostra como o tratamento acontece; o resultado de outro paciente depende do osso, da gengiva e da causa da recessão dele.
Enxerto de gengiva dói? Como é a recuperação
Durante a cirurgia, a anestesia local evita a dor. Depois, o incômodo costuma se concentrar nos primeiros dias, e mais no céu da boca, de onde o tecido foi retirado, do que no dente tratado. Os estudos confirmam esse custo: as técnicas com enxerto de conjuntivo dão mais incômodo pós-operatório que as técnicas sem enxerto (Cairo e colaboradores, 2020). A medicação prescrita para depois da cirurgia serve para controlar esse período.
Na recuperação, em geral:
- Alimentação mais macia e fria nos primeiros dias, mastigando do outro lado.
- Escovação suspensa só na área operada, pelo tempo que o cirurgião indicar; o resto da boca segue com escova normal.
- Esforço físico reduzido nos primeiros dias.
- Retorno para retirar os pontos e acompanhar a cicatrização.
Em geral, são cerca de 3 dias de afastamento do trabalho; quem define é o cirurgião, conforme o caso.
A cicatrização tem etapas. No caso acima, aos 22 dias a gengiva ainda estava com os pontos, em cicatrização; a foto de 91 dias mostra o tecido mais maduro.
O resultado fica natural? É perigoso?
O enxerto de conjuntivo fica por baixo da gengiva do próprio lugar, por isso tende a se misturar à cor da gengiva ao redor. Na mesma revisão de 2020, as técnicas com enxerto de conjuntivo tiveram o melhor desempenho estético e a maior satisfação dos pacientes, com a ressalva de que a integração do enxerto pode deixar a cor e a textura um pouco diferentes da gengiva vizinha.
É uma cirurgia pequena, feita com anestesia local, mas é cirurgia. Pode haver inchaço, sangramento discreto no céu da boca e incômodo nos primeiros dias, e o enxerto pode não recobrir a raiz inteira. Esses pontos são explicados antes, na avaliação, junto com o que é provável no seu caso.
Quanto custa um enxerto de gengiva
O investimento depende do caso, e por isso ele é definido no plano de tratamento, depois da avaliação. O que mais pesa:
- Quantos dentes precisam de recobrimento e em quantas regiões da boca.
- A técnica indicada para a sua gengiva e para o osso entre os dentes.
- Etapas antes da cirurgia, como tratar a inflamação da gengiva, corrigir a escovação ou, em alguns casos, mover o dente com aparelho.
- Sedação ou equipe de anestesiologia, se você optar por mais conforto.
O tratamento pode ser parcelado, e as condições são apresentadas junto com o plano.
Quem trata gengiva retraída
O tratamento da gengiva é área da periodontia, e a cirurgia de enxerto é feita por especialista. Na Casa Grimaldi, a equipe de especialistas inclui periodontia e cirurgia. O Dr. José Grimaldi conduz a avaliação, cuida do que envolve o dente, como foi o aplainamento da raiz no caso acima, e acompanha o plano do começo ao fim.
Gengiva inflamada, que sangra, é outra conversa: veja gengiva sangrando e mau hálito. A limpeza profissional que ajuda a controlar a inflamação está em profilaxia.
A avaliação define o seu caso
Gengiva retraída não se resolve igual para todo mundo. Na avaliação, o Dr. José Grimaldi examina a gengiva, mede a recessão, procura a causa e explica se o enxerto faz sentido para você, quem faz a cirurgia, quanto tempo leva e qual é o investimento, para você decidir com calma, inclusive em casa.
Perguntas frequentes
Gengiva retraída volta ao normal?
A gengiva que recuou não cresce de volta sozinha, nem com escova, pasta ou remédio caseiro. Em muitos casos, a raiz exposta pode ser recoberta com um enxerto de gengiva; quanto dela volta a ficar coberto depende do osso e da gengiva entre os dentes, que a avaliação mede.
O que fazer quando a gengiva retrai?
Procurar uma avaliação para descobrir a causa: escovação com força, inflamação da gengiva, gengiva fina, posição do dente ou um dente que se moveu depois do aparelho. Até lá, escova macia com movimento leve, creme dental para sensibilidade e fio dental diário ajudam a controlar o avanço e o incômodo, mas não recobrem a raiz.
O que é enxerto de tecido conjuntivo?
É a cirurgia que retira uma faixa da camada interna da gengiva, geralmente do céu da boca, e a coloca sobre a raiz exposta, por baixo da gengiva do próprio dente. Revisões de ensaios clínicos apontam essa técnica, com a gengiva reposicionada por cima, como a de melhor resultado de recobrimento em recessões isoladas.
Enxerto de gengiva dói?
Durante a cirurgia, a anestesia local evita a dor, e a sedação por medicação oral está disponível. Depois, o incômodo costuma se concentrar nos primeiros dias, mais no céu da boca que no dente tratado, e é controlado com a medicação prescrita.
Quanto custa um enxerto de gengiva?
Depende de quantos dentes precisam de recobrimento, da técnica indicada, das etapas antes da cirurgia e da opção por sedação. O investimento é definido no plano de tratamento, depois da avaliação, e pode ser parcelado.
Raiz exposta pode fazer o dente cair?
A recessão sozinha não faz o dente cair. Quando ela vem da doença periodontal, com perda de osso, o dente pode ficar mole com o tempo; por isso a primeira etapa é descobrir a causa.
Revisado por Dr. José Grimaldi — CRO/SC 8825 ·